Projeto volta a Brasília com teatro, música e gastronomia de graça no palco do Sesc Gama

Concebido pela atriz Caísa Tibúrcio, SerTão a Gosto leva ao público mesas gastronômicas com chefs convidadas e emocionante espetáculo teatral regado a música, risos, lágrimas, cachaça e galinhada
Depois de circular nacionalmente por Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro em 2025, o projeto SerTão a Gosto volta à capital federal reunindo comida regional, cultura brasileira, música e teatro. A próxima parada será no Gama (DF), no Teatro Sesc Paulo Gracindo, de 12 a 14 de junho, com entrada franca, mediante doação de 1kg de alimento não-perecível. Os ingressos são digitais e podem ser retirados gratuitamente no site do Sesc DF.
O projeto consiste na promoção de mesas gastronômicas com chefs convidadas e a apresentação do espetáculo cênico-musical-gastronômico “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja”. A concepção e atuação são assinadas pela atriz Caísa Tibúrcio e a realização é da Casulo Teatro. O projeto é realizado com apoio do Sesc-DF.
A experiência gastronômica será realizada sempre antes do espetáculo, para que o público possa conectar a arte da cozinha com a arte cênica. Desta vez, o projeto reunirá um time de renomadas chefs do Distrito Federal para a realização de três mesas gastronômicas nas quais o público poderá mergulhar na relação entre comida e cultura por meio de receitas carregadas de história.
MESAS GASTRONÔMICAS
Serão três mesas gastronômicas ao todo. A abertura da temporada, na sexta-feira (12/6), às 18h, contará com a presença da chef, professora e vencedora do Masterchef Profissionais, Bárbara Frazão. À frente dos restaurantes Afeto (melhor restaurante brasileiro de Veja Brasília Comer & Beber) e do recém-inaugurado Bafafá, ela vai cozinhar e contar a história por trás de sua clássica receita de pastinha de jiló.
No sábado (13/6), às 17h, será a vez de outra chef premiada ocupar o palco. Júlia Almeida, do Terra Nova Brasília e vencedora do prêmio de chef revelação de Veja Comer & Beber, apresentará ao público a receita de tachada goiana, celebrando a tradição dos interiores do estado de Goiás de cozinhar todos os ingredientes no mesmo tacho (ou panela);
Para encerrar a temporada, quem abrilhanta o palco do SerTão a Gosto é a chef e pesquisadora gamense Bárbara Brisa. Especializada em gastronomia coreana, objeto de suas pesquisas há mais de 10 anos, ela se inspira nos modos culinários dos interiores do Brasil, das panelas de barro, para produzir um clássico coreano: o bibimbap, acompanhado, é claro, de sua famosa receita de kimchi (distribuída para muitos dos restaurantes do DF).
Cada chef mostrará uma receita clássica do seu repertório produzido em uma panela só, ao passo em que conversam com a plateia sobre o que está por trás de cada prato, com a mediação do crítico gastronômico Guilherme Lobão. Durante o intervalo entre a mesa gastronômica e o espetáculo, Lobão conduzirá uma palestra sobre memória, afetos, comida e arte.
Professor, palestrante e estudioso das intersecções da gastronomia com a comunicação, a arte e a cultura, Lobão criou o conceito das mesas para aproximar a realização lúdica e teatral do espetáculo “Enluarada”, de Caísa Tibúrcio, com a prática e os saberes do mercado gastornômico. “A ideia foi provocar as chefs profissionais a apresentarem os processos e atravessamentos da cultura alimentar e das regionalidades como centrais para a formação de identidade gastronômica”, pontua.
ENLUARADA
O espetáculo “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja” é um monólogo que tem como alicerce o trabalho de dramaturgia pessoal e de composição da atriz Caísa Tibúrcio, que busca dar materialidade ao invisível, ao acionar suas memórias para serem traduzidas em cena com as significações e interesses do agora. A peça dá abertura para a ficcionalização, num jogo de rememoração para o nascedouro de uma dramaturgia autoral ficcional.
Em uma perspectiva descolonial, o espetáculo é um convite ao espectador para adentrar o interior brasileiro. Faz uma espécie de etnografia propositiva ao dar vozes à história e aos saberes orais e trabalha com elementos constitutivos da tradição popular, como ritos, mitos, culinária, símbolos, histórias tradicionais, crenças e tudo aquilo que foi criado e conservado por aqueles que existiram antes de nós.
No palco, uma típica cozinha mineira é o cenário escolhido para contar a história da jovem Maroca e seu grande amor, Heitor, vaqueiro e também violeiro. Enquanto prepara uma galinhada – passando por todos os processos, desde a retirada da pele do frango, o corte em pedaços, depois o cozimento e finalização – a atriz narra uma epopeia no interior mineiro, misturando histórias inventadas e lembradas, a partir de vivências familiares. Ao término do preparo, que coincide com o fim do espetáculo, Caísa oferece a comida ao público como uma grande celebração do teatro.
“Como se trata de uma tradição, acabamos escolhendo a cozinha, que é um lugar que, muitas vezes, dentro dessa cultura patriarcal em que a gente vive, é um lugar de opressão, de sobrecarga para as mulheres.”, justifica Caísa. “Eu quis trazer esse olhar um pouco mais poético porque, muitas vezes, a cozinha é um lugar de poder, de muito afeto. Em Minas, muitas coisas, muitas histórias giram em torno desse espaço, e na minha casa sempre foi assim, uma vez que a cozinha tem essa centralidade social no modo de ser e de se fazer entre as pessoas”, completa.
A ideia de criar um prato durante o espetáculo surgiu a partir desse lugar da cozinha. “Eu logo pensei na galinhada pela praticidade, pelos alimentos que a gente usaria, e depois veio o desejo de trabalhar com a linguagem dos objetos para poder conduzir a manipulação, o significado, a poética em cima desses alimentos e utensílios”, conta Caísa.
Para a montagem do projeto, a artista foi movida pelo desejo de falar de um Brasil que é muito pouco falado e de contar histórias que são conduzidas pelas pessoas, especialmente pelas mulheres. “Eu sou de Brasília, que é uma cidade formada por pessoas de todo o país, mas minha família é mineira. Passei a minha infância indo para Minas Gerais vendo Folias de Reis e convivendo com essa cultura, que também possui um repertório que é o sertanejo raiz, que eu gosto muito, e então toda essa musicalidade, cultura e ambiente fazem parte da minha memória afetiva, da minha formação”, relata.
Caísa quis trazer tudo isso para o projeto, mas, ao mesmo tempo, perceber esse universo pelo olhar das mulheres. “No mestrado, estava fazendo uma pesquisa com as mulheres da minha família, ouvindo suas histórias, confissões, sensações, emoções e até mesmo pequenos detalhes como os objetos, que foram compondo esse olhar. Fiz um recorte a partir das narrativas femininas, mas traçando uma relação com o imaginário popular”, propõe.
Segundo Caísa Tibúrcio, esse olhar feminino trouxe uma poética mais universal, com temas que fazem parte das relações humanas, independentemente da região. “Hoje temos um discurso muito globalizante, inclusive sobre o que é o teatro contemporâneo, mas eu queria fazer um trabalho contemporâneo que tivesse uma cara bem brasileira, realçando que a cultura é um marcador de espaço, é o que forma a nossa identidade”, diz.
A cultura, para ela, é o que nos distingue, por isso quis marcar um trabalho que tivesse bem a cara desse Brasil interiorano, trazendo uma relação mais humana, que passa pelas emoções. “O retorno do público é sempre muito legal, percebemos essa universalidade quando as pessoas trazem seus depoimentos que também dialogam com as temáticas do espetáculo a partir de suas vivências íntimas, afetivas, universais. A partir de uma estética mineira a gente consegue chegar numa emoção que é muito genuína do ser humano”, ressalta.
A atriz conta que o processo de composição da peça passou por um momento de pesquisa do “Teatro de Objetos” com o Grupo Sobrevento, de São Paulo, referência nessa técnica. “Sandra Vargas, integrante do grupo, desenhou, no início do processo, junto comigo e com o diretor Denis Camargo, a manipulação dos objetos da cozinha e dos alimentos. O trabalho dela foi muito importante, pois o desenho das ações foi conduzido com olhar dessa linguagem”, diz.
TRILHA MUSICAL
A música também é componente essencial de “Enluarada”. Além de narrar a história, a artista canta e toca acordeom. “As canções mineiras sempre me atraíram bastante, então muito dessa pesquisa, dessa narrativa, foram conduzidas para se aproximar dessa sonoridade. A música é muito importante no espetáculo porque ela vai conduzindo e ambientando essa história que se passa no interior de Minas Gerais, mas eu procurei dar uma dimensão universal para uma trama simples de uma relação de amor e morte”, diz Caísa.
A peça conta com composições assinadas por Caísa, em parceria com a irmã, Milena Tibúrcio, e o pai, Caio. A dupla Zé Mulato & Cassiano, indicada ao Grammy Latino em 2019 na categoria “Melhor Álbum Música Raiz”, gravou uma música inédita para o espetáculo “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja”.
Outras canções autorais também foram gravadas, como “Andarilho”, composição de Milena Tibúrcio e do letrista Caio Tibúrcio, “Senhora do Destino”, com letra de Caísa e melodia de Fernando César, que assina a direção musical do espetáculo e as músicas instrumentais; e “Enluarada”, letra composta pela atriz e melodia assinada pela musicista Milena Tibúrcio. O repertório inclui, ainda, a canção “Lua Branca”, de Chiquinha Gonzaga, e “Moreninha”, da cultura popular, ambas de domínio público.
SERVIÇO
Projeto “SerTão a Gosto” com apresentação do espetáculo “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja”
Local: Teatro Sesc Paulo Gracindo – QI 1, LT 680, Setor de Industria, Gama, DF
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Entrada: Gratuito, mediante retirada de ingresso é digital no site do Sesc DF e doação de 1kg de alimento não-perecível.
Acesso ao evento:
A entrada será permitida mediante:
✔️ Apresentação do ingresso com QR Code
✔️ Entrega de 1 kg de alimento não perecível
DATAS
12/6 Sexta-feira
18h
Mesa Gastronômica com a participação da chef e professora Bárbara Frazão (Afeto e Bafafá), mediada por Guilherme Lobão
20h
Apresentação do espetáculo “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja”
13/6 Sábado
17h
Mesa Gastronômica com a chef Júlia Almeida (Terra Nova Brasil), mediada por Guilherme Lobão
19h
Apresentação do espetáculo “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja”
14/6 Domingo
17h
Mesa Gastronômica com a a chef e pesquisadora Bárbara Brisa, mediada por Guilherme Lobão
19h
Apresentação do espetáculo “Enluarada – Uma Epopeia Sertaneja”
Ficha técnica
Concepção e Atuação: Caísa Tibúrcio
Dramaturgia: Caísa Tibúrcio
Direção Cênica: Denis Camargo
Direção Musical: Fernando César
Orientação teatro de objetos: Sandra Vargas / Grupo Sobrevento
Cenário: Caísa Tibúrcio e Roustang Carrilho
Figurino: Roustang Carrilho
Iluminação: Ana Quintas
Operação de Luz: Lemar Rezende e Larissa Souza
Design Gráfico: Jana Ferreira
Assistência de Produção: Fábio Jorge
Curadoria e Mediação: Guilherme Lobão
Coordenação Geral: Caísa Tibúrcio
Realização: Casulo Teatro
Minibios das chefs convidadas
BÁRBARA FRAZÃO
formada em Gastronomia, pós-graduada em Nutrição e em Docência do Ensino Superior. Especialista em cozinha pelo Senac, também possui cursos na Le Cordon Bleu, além de formações em açougue, cozinha contemporânea e clássica.
Acumulou experiência em restaurantes renomados como Maní e D.O.M. em São Paulo e no Pujol, na Cidade do México. Empresária, é chef responsável pelo Afeto Restaurante e pela Caramelou.
Em 2023 venceu o maior reality de culinária do Brasil, o MasterChef Profissionais, e em 2024 foi eleita Chef Revelação pela revista Prazeres da Mesa. Atualmente é professora e embaixadora da gastronomia no UDF, representando nacionalmente a Cruzeiro do Sul Educacional.
JÚLIA ALMEIDA
Chef de cozinha do Senac Departamento Nacional, pesquisadora de alimentos, professora e consultora gastronômica, reconhecida por seu trabalho de valorização da cozinha brasileira, dos biomas nacionais e da cultura alimentar do país.
Com pesquisa voltada aos biomas brasileiros, seus ingredientes, tradições e territórios, desenvolve no Distrito Federal um trabalho de conexão entre Cerrado, gastronomia, produtores locais, pesquisadores e restaurantes, promovendo uma cozinha contemporânea profundamente enraizada na identidade brasileira.
Foi vencedora do prêmio Chef Revelação Brasília Veja 2025/2026, destacando-se pela criação e execução de um cardápio autoral brasileiro no Palácio do Itamaraty, projeto que consolidou sua atuação ao colocar os sabores, ingredientes e tradições do Brasil como protagonistas dentro de uma das instituições mais emblemáticas do país.
Sua trajetória inclui passagens por algumas das mais respeitadas cozinhas do Brasil e da América Latina e do Norte, como Maní, Carlota, Áttimo, Açougue Central, além de experiências internacionais no Alinea e nos premiados Astrid y Gastón e Central.
Em Brasília, atua como chef residente do Eixo — novo empreendimento gastronômico do Senac Departamento Nacional dedicado ao estudo, pesquisa e celebração dos biomas brasileiros. Também assina consultorias e cardápios de diferentes casas da capital, como The Plant, Terra Nova, Patinho Feio, Amélia e Castanho Café, desenvolvendo uma cozinha autoral, técnica e sensível, que valoriza o Cerrado, os ingredientes brasileiros e a diversidade cultural do país.
Por meio de sua atuação como chef, pesquisadora e educadora, Júlia Almeida compartilha conhecimento, fomenta a cadeia produtiva local e contribui para a construção de uma gastronomia brasileira mais consciente, inovadora e conectada às suas origens.
BÁRBARA BRISA
Bárbara Brisa é cientista social, cozinheira pesquisadora de culinária coreana há mais de uma década e cofundadora do projeto Maūm Ūmsik, onde difunde conhecimentos sobre a cultura alimentar coreana e estabelece pontes e intercâmbios culturais por meio de saberes, técnicas e sabores entre as cozinhas brasileira e coreana.