Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, Brasil ultrapassa 160 mil denúncias por crimes ligados à fauna, flora e poluição

Foto Magnific

Em meio ao Junho Verde, dados recentes do Escavador mostram o contraste entre a agenda climática e o cumprimento das regras ambientais incorporadas às atividades econômicas.    

Quase dois anos após o ‘marco regulatório’ do mercado de carbono no Brasil, Lei Nº 15.042, de 2024, o país dá sinais de uma recessão histórica ambiental. Segundo um relatório divulgado pelo Escavador na última quinta-feira, 28, os processos relacionados à poluição cresceram 66% de 2024 para 2025. 

A análise do Escavador revelou um salto na quantidade de processos: de 9,8 mil denúncias no ano de 2023, a oscilação rendeu 10,9 mil ações em 2024, até alcançar o patamar de 18 mil processos em 2025. No período total analisado, a variação cresceu 86%, totalizando 41 mil denúncias entre os anos de 2023 e 2026.  

Apesar dos esforços para amenizar as mudanças climáticas e reduzir poluentes, através do “Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa” (SBCE), a contaminação vai além das toneladas de CO2 e se ramifica em outras vertentes. A última apuração do Escavador destacou categorias como poluição da água, fauna aquática, descarte de resíduos, mineração ilegal, ‘posse, uso ou tráfico’ de substâncias tóxicas, degradação por radiação, além de estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores. 

“Existe um contraste entre a agenda climática do país e o que aparece na prática. O mercado de carbono foca principalmente na redução de gases de efeito estufa, mas os problemas ambientais são mais amplos, envolvendo desde mineração ilegal até poluição e danos à fauna aquática. O aumento de 66% nesses processos mostra que ainda há um longo caminho até que o cumprimento das regras ambientais esteja de fato incorporado às atividades econômicas”, destaca Dalila Pinheiro, Coordenadora Jurídica e DPO da plataforma Escavador. 

No recorte por estados, Minas Gerais lidera o ranking nacional acumulando 11 mil processos relacionados à poluição. Em seguida, aparecem Rio Grande do Sul (6 mil), Santa Catarina (4 mil) e São Paulo (3 mil). Estados da Amazônia Legal, como Pará (1,9 mil), Roraima (1,2 mil), Mato Grosso (1,1 mil) e Rondônia (673), também figuram entre os principais volumes processuais. “Isso reflete a pressão ambiental em regiões de expansão mineral, agropecuária e de exploração irregular”, explica. 

Crimes contra a fauna e flora ganham relevância; veja a análise de 2023 a 2026

Somados às preocupações com a contaminação do ar e das águas, os crimes contra a fauna e a flora brasileiras também mantiveram os patamares elevados nos últimos anos. No total, 122 mil inquéritos envolvendo ambas as categorias foram contabilizados entre 2023 e 2026, no Brasil. 

O levantamento do Escavador identificou mais de 67 mil processos ligados a crimes contra a flora. Entre as principais queixas estão destruição, degradação ambiental, queimadas e incêndios florestais, desmatamento associado à exploração econômica irregular, além da extração ilegal de madeira e mineração clandestina em áreas de floresta. Também foram identificados processos envolvendo comércio ou posse de produtos oriundos de exploração ilegal de madeira.

Os primeiros meses de 2026, contudo, apresentaram retração nos registros. Entre janeiro e maio deste ano, a plataforma contabilizou 5,9 mil processos relacionados à flora, com destaque para março, que concentrou 1,8 mil ações. Em maio, o número caiu para apenas 300 registros, o menor índice mensal do período analisado.

O estado de São Paulo lidera o ranking nacional de crimes contra a flora, com 15 mil processos acumulados, seguido por Minas Gerais (13,9 mil), Santa Catarina (7,9 mil) e Rondônia (3,9 mil). “Os crimes contra a flora estão ligados à pressão sobre os biomas. Queimadas, desmatamento e exploração ilegal impactam principalmente as áreas de vegetação nativa e regiões de preservação ambiental, indicando que a degradação continua avançando mesmo diante do aumento das discussões sobre sustentabilidade, mercado de carbono e iniciativas verdes”, explica. 

Sudeste do país encabeça “crimes contra a fauna”; veja os números

Além dos impactos sobre a vegetação nativa, os dados do Escavador ainda revelam o avanço de infrações relacionadas à fauna brasileira, especialmente em casos ligados à caça ilegal, tráfico de animais silvestres, importação irregular de espécies controladas, pesca ilegal, maus-tratos e degradação dos ecossistemas aquáticos.

A análise, entre os anos de 2023 e 2026, mostrou que os “crimes contra a fauna” já ultrapassam os 55 mil processos no país, passando de 16,6 mil ações para 17,9 mil registros no último ano. Os processos envolvendo a fauna aquática, afetada pela poluição, descarte de resíduos e degradação da água, aparecem entre os principais enfoques das investigações ambientais. 

Entre as federações, São Paulo novamente lidera o ranking, com 14,8 mil denúncias ligadas a crimes contra a fauna, seguido por Minas Gerais (10,8 mil), Santa Catarina (5,1 mil) e Rio Grande do Sul (3,4 mil). O Rio de Janeiro aparece logo atrás, com 2,7 mil ações. “Os dados indicam que há uma persistência de judicialização ambiental em diferentes frentes, como poluição, flora e fauna. Na prática, isso significa que os mecanismos de controle ainda enfrentam dificuldades para reduzir as práticas de degradação ambiental”, conclui Dalila.

Confira a lista de denúncias por ‘poluição’ nos estados (2023 a 2026)

Minas Gerais (MG) – 11.062

Rio Grande do Sul (RS) – 6.382

Santa Catarina (SC) – 4.516

São Paulo (SP) – 3.691

Pará (PA) – 1.934

Paraná (PR) – 1.882

Roraima (RR) – 1.270

Mato Grosso (MT) – 1.128

Bahia (BA) – 1.026

Ceará (CE) – 935

Rio de Janeiro (RJ) – 888

Goiás (GO) – 882

Espírito Santo (ES) – 828

Amazonas (AM) – 811

Rondônia (RO) – 673

Maranhão (MA) – 617

Tocantins (TO) – 540

Mato Grosso do Sul (MS) – 484

Paraíba (PB) – 452

Amapá (AP) – 443

Rio Grande do Norte (RN) – 248

Alagoas (AL) – 225

Pernambuco (PE) – 224

Sergipe (SE) – 175

Acre (AC) – 91

Distrito Federal (DF) – 83

Piauí (PI) – 68

Confira a lista de ‘crimes contra a flora’ nos estados (2023 a 2026)

São Paulo (SP) – 15.160

Minas Gerais (MG) – 13.956

Santa Catarina (SC) – 7.971

Rondônia (RO) – 3.922

Amazonas (AM) – 3.520

Paraná (PR) – 3.493

Mato Grosso (MT) – 3.080

Pará (PA) – 2.996

Rio Grande do Sul (RS) – 1.507

Espírito Santo (ES) – 1.328

Goiás (GO) – 1.297

Tocantins (TO) – 1.261

Acre (AC) – 1.097

Roraima (RR) – 998

Ceará (CE) – 840

Maranhão (MA) – 823

Rio de Janeiro (RJ) – 722

Mato Grosso do Sul (MS) – 659

Bahia (BA) – 544

Amapá (AP) – 432

Alagoas (AL) – 248

Pernambuco (PE) – 244

Piauí (PI) – 233

Rio Grande do Norte (RN) – 188

Distrito Federal (DF) – 185

Confira a lista de ‘crimes contra a fauna’ nos estados (2023 a 2026)

São Paulo (SP) – 14.839

Minas Gerais (MG) – 10.836

Santa Catarina (SC) – 5.120

Rio Grande do Sul (RS) – 3.482

Rio de Janeiro (RJ) – 2.749

Paraná (PR) – 2.436

Rio Grande do Norte (RN) – 2.122

Pernambuco (PE) – 1.420

Pará (PA) – 1.180

Goiás (GO) – 1.103

Distrito Federal (DF) – 1.096

Ceará (CE) – 1.071

Amazonas (AM) – 958

Tocantins (TO) – 947

Alagoas (AL) – 874

Paraíba (PB) – 785

Bahia (BA) – 770

Espírito Santo (ES) – 652

Sergipe (SE) – 549

Mato Grosso (MT) – 507

Piauí (PI) – 423

Maranhão (MA) – 329

Amapá (AP) – 329

Rondônia (RO) – 248

Roraima (RR) – 217

Mato Grosso do Sul (MS) – 208

Acre (AC) – 187

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