Doze mulheres conquistaram vagas e o DF terá primeira bancada totalmente feminina. Resultado amplia a representação, mas participação ainda fica abaixo de um quarto
A eleição de 12 mulheres para o Senado estabeleceu um recorde desde a redemocratização e colocou a participação feminina na política em evidência. A bancada feminina poderá chegar a 18 integrantes em 2027, considerando também as suplentes em exercício. Se essa composição se confirmar, serão 22,2% das 81 cadeiras. No Distrito Federal, o resultado trouxe outro marco: a partir do ano que vem, as três cadeiras serão ocupadas por mulheres. Apesar do avanço, elas ainda devem representar menos de um quarto dos integrantes da Casa.
Para a professora de Direito do Centro Universitário de Brasília (CEUB) Evelyn Apolinária, o resultado mostra uma ampliação da presença feminina, mas também expõe a distância entre conquistar mais vagas e alcançar equilíbrio nos espaços de decisão. “O recorde merece destaque porque amplia a presença de mulheres em uma instituição historicamente masculina. Ao mesmo tempo, elas continuam sendo minoria. É preciso olhar tanto para o avanço quanto para as barreiras que ainda dificultam sua entrada e permanência na política.”
O que muda com mais mulheres eleitas?
A presença de mais mulheres amplia as possibilidades de participação na elaboração de leis, na fiscalização do poder público e nas decisões sobre políticas públicas, além de tornar a liderança feminina uma referência. O efeito dessa mudança, porém, depende da atuação das parlamentares e do espaço que elas ocupam dentro da instituição. Além do número de eleitas, importa acompanhar quem assume a presidência de comissões, lidera bancadas e participa das negociações sobre as principais propostas. ““Chegar ao cargo é uma etapa importante. Outra é ter condições de influenciar decisões. Por isso, a representação também precisa ser observada nos cargos de liderança partidária, nas presidências das comissões e na capacidade de relatar matérias importantes para a população.”
DF terá uma bancada só de mulheres
Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, foram eleitas para as duas vagas em disputa no Distrito Federal. Elas se juntarão a Damares Alves (Republicanos), cujo mandato vai até 2031, formando a primeira bancada estadual ou distrital inteiramente feminina da história do Senado. Para a docente do CEUB, apesar de mostrar mulheres ocupando todos os espaços de representação de uma unidade da Federação na Casa, essa presença não significa uma agenda única. “As mulheres têm diferentes trajetórias, posições políticas e prioridades. Uma bancada feminina não é necessariamente uma bancada com pensamento uniforme. O eleitor precisa observar as propostas e a atuação de cada representante.”
Mais representação significa mais pautas para as mulheres?
A ampliação da bancada cria oportunidades para dar visibilidade a diferentes demandas, mas não permite antecipar quais temas terão prioridade. Essa avaliação depende dos compromissos das eleitas, dos projetos que apresentarão e das posições que assumirão nas votações. Questões como enfrentamento da violência, acesso à saúde, trabalho e responsabilidades de cuidado podem orientar o acompanhamento dos mandatos. A diversidade entre as próprias mulheres também precisa entrar nessa análise. “Não existe uma experiência única de ser mulher. Região, renda, raça e condições de vida influenciam as demandas. Uma representação mais ampla precisa considerar essa diversidade.”
Como transformar o recorde em avanço duradouro?
O resultado também coloca os partidos nesta discussão, já que a formação de lideranças, o apoio às candidaturas e o acesso a recursos e visibilidade são fundamentais para ampliar a participação feminina nas próximas eleições. Na avaliação de Evelyn, o recorde deve ser acompanhado ao longo dos mandatos: o desafio é verificar se o crescimento nas urnas será sustentado e se abrirá espaço para outras mulheres: “Uma eleição pode estabelecer um marco, mas a participação feminina precisa ser construída continuamente. O avanço se consolida quando mais mulheres encontram condições de disputar, vencer e exercer seus mandatos.”