
Guardião dos saberes do Quilombo dos Prazeres conduzirá atividades para adultos e crianças
O arte-educador e mestre em cultura popular pernambucano Lucas dos Prazeres faz uma série de atividades em escolas, institutos e na CAIXA Cultural Brasília para explicitar um método revolucionário de aprendizagem e formação da cidadania através da cultura. O músico apresenta a estudantes, professores e gestores até o 1º de abril o potencial transformador e representativo da metodologia “Reaprender brincando”, uma atualização da “Aprendizagem pela Prática Cultural”, filosofia de formação humanista aplicada em comunidades periféricas de Pernambuco e cuja essência serviu como uma das referências à formulação da Lei 10.639 – medida de introdução da história e cultura afro-brasileiras nos currículos educacionais do Brasil.
A programação é composta por visitas a escolas, dentro do programa educativo CAIXA Gente Arteira, e uma série de atividades na Caixa Cultural Brasília, todas gratuitas: duas turmas do curso de formação “Reaprender brincando”, voltado para professores e arte-educadores, uma oficina de musicalização infantil “Corpo percussivo, alma brincante”, no sábado, às 10h, e a aula-espetáculo “Brincadeira se preserva brincando”, do personagem Zé Tamanquinho, criado por ele, no domingo, às 15h.
A metodologia não é simplesmente uma forma de incluir arte e cultura na sala de aula. Vai além: estrutura o saber ancestral, popular e cultural em instrumento pedagógico para transmissão de conteúdo e aprendizado de várias matrizes do conhecimento. O mecanismo une ensino e identidade sob uma proposta inclusiva, antirracista e representativa sem cair naquela prática habitual de abordar a arte de modo contemplativo durante as atividades escolares – o método inocula a vivência cultural como fonte e ponte para a aprendizagem e o desenvolvimento do senso crítico.
Ciranda, coco de roda, maracatu rural, capoeira, por exemplo, surgem como ferramentas pedagógicas entrelaçadas a reflexões sobre tecnologias ancestrais, valores e princípios quilombolas, governança comunitária e estratégias de transformação social. As atividades perpassam escrita criativa, medicinas tradicionais, manifestações da cultura popular afro-pernambucana para ampliar o repertório metodológico dos educadores através da consciência antirracista, inclusiva, representativa e plural ancorada na cultura popular.
“É uma imersão prática e teórica que propõe refletir sobre a potência das expressões artísticas como caráter formador da cidadania e como estratégia de enfrentamento ao racismo estrutural na educação brasileira”, observa Lucas dos Prazeres, para quem a formação “traz para o centro do debate a preservação do patrimônio imaterial brasileiro”. O conteúdo “Cultura popular nas escolas”, apresentado com música e diálogo para estudantes e professores da rede pública, se propõe a criar uma salvaguarda das brincadeiras e manifestações culturais com foco na perpetuação de princípios e valores civilizatórios passados através das gerações afro-brasileiras. Nas aulas, o arte-educador dá vida ao personagem Zé Tamanquinho, brincante da cultura popular delineado para repassar, de forma lúdica, o acervo de saberes contido nos ritmos, na dança e nas brincadeiras da tradição brasileira.
A metodologia de ensino apresentada por Lucas é uma atualização do processo inventado pela tia Maria Lúcia dos Prazeres e pela mãe, Conceição dos Prazeres, duas mulheres negras, periféricas, protagonistas da luta antirracista em Pernambuco e no Brasil, envolvidas na constituição de frentes ativistas imprescindíveis contra a discriminação. É aplicado há 40 anos no Centro de Educação Maria da Conceição e Ponto de Cultura Negras Raízes – hoje, Quilombo dos Prazeres, espaço de resistência e produção cultural no Morro da Conceição, na periferia do Recife, de onde o percussionista é guardião dos saberes. O sistema virou uma das referências para a criação da Lei 10.639/2003, medida de introdução do ensino obrigatório da História e Cultura Afro-Brasileira nos modelos educacionais (com direito à participação delas na redação da legislação).
GUARDIÃO DO SABER
O músico Lucas dos Prazeres tem 39 anos de trajetória artística e é considerado um dos principais expoentes da percussão brasileira. Cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor, diretor musical, bailarino, curador e arte-educador, é idealizador da Orquestra dos Prazeres, grupo percussivo de ação sociopolítica a partir da sonoridade do universo afro-indígena, integra a cátedra Naná Vasconcelos da Universidade Federal Rural de Pernambuco, dirige a orquestra Tumaraca (encontro de nações de maracatu de baque virado da abertura do carnaval do Recife), comanda o projeto Pernambuco Nação Percussiva, foi percussionista da equipe de Naná Vasconcelos por 12 anos e de Alceu Valença por 7 anos.
A extensa carreira imbricada na preservação e propagação da identidade artística e cultural – sobretudo de origem afro-brasileira – levou o artista a receber o título de Notório Saber da Universidade de Pernambuco, reconhecimento pela contribuição enquanto mestre de cultura popular. “Este título não é apenas meu, é o reconhecimento da força do Quilombo dos Prazeres, da nossa ancestralidade e da cultura popular que resiste e se renova todos os dias”, ele pontua. A solenidade será no dia 16 de abril, em Nazaré da Mata, considerada a capital do maracatu de baque solto em Pernambuco.
O tributo expande a visibilidade no plano acadêmico e institucional de uma trajetória cuja relevância para a percepção da identidade brasileira ocupa a arte desde a infância. Do palco à sala de aula, o músico fez e faz da vida e da voz a defesa permanente da cultura e do povo negro contra feridas do tempo, apagamentos e preconceitos.
AGENDA
23/03: Início das visitas às escolas públicas e institutos culturais do Distrito Federal
25 a 27/03: Primeira turma de formação gratuita para educadores na Caixa Cultural
28/03 (das 10h às 12h): Oficina de musicalização infantil gratuita na Caixa cultural
29/03 (15h): Aula-espetáculo com o personagem infantil “Zé Tamanquinho” na Caixa Cultural
30/3 a 1/4: Segunda turma de formação para educadores na Caixa Cultural