Hantavirose: entenda sintomas, formas de transmissão e por que a doença exige atenção

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Especialista do CEUB explica como ocorre a infecção, quais grupos estão mais expostos e por que diagnóstico rápido é decisivo para evitar mortes

O surto de hantavírus registrado no navio MV Hondius, em rota entre a Argentina e a África, acendeu o alerta para uma doença rara, mas com alta taxa de letalidade. Apesar da preocupação com a variante Andes, uma das poucas com transmissão entre humanos, especialistas afirmam que o hantavírus tem comportamento diferente do coronavírus e não apresenta potencial pandêmico. No Brasil, a hantavirose é endêmica e ocorre em áreas rurais com presença de roedores silvestres. A infectologista e professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Eveline Vale, explica os sintomas, formas de transmissão, medidas preventivas e diferenças entre as variantes do vírus.

Confira a entrevista na íntegra:

Quando o quadro de hantavírus se torna grave?
EV: O quadro inicial possui sintomas inespecíficos, como febre, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas, vômitos e mal-estar geral. Os sintomas de gravidade podem surgir entre o terceiro e o sétimo dia da doença e são: falta de ar progressiva, tosse, queda da pressão arterial, taquicardia, diminuição do volume da urina e sangramentos. O quadro pode evoluir para insuficiência respiratória aguda. A evolução pode ser muito rápida, com necessidade de internação em UTI e ventilação mecânica.

Qual é o tratamento indicado atualmente?
EV: Não existe antiviral específico. O tratamento é feito com medidas de suporte, como antitérmicos, hidratação vigorosa e, nos casos graves, manejo precoce da insuficiência respiratória com uso de oxigênio e ventilação mecânica, se necessário. Além disso, pode ser necessário controle da pressão arterial e diálise precoce quando indicada.

Como prevenir a infecção?
EV: As principais medidas preventivas são evitar contato com fezes, urina e ninhos de roedores. É essencial usar máscara de proteção quando for realizar limpeza de locais fechados que possam ter roedores, especialmente ao varrer locais contaminados a seco. Além disso, é preciso manter alimentos armazenados de maneira segura, vedar lugares que favoreçam infestação de ratos e manter terrenos limpos e sem acúmulo de lixo.

Qual o erro mais comum na limpeza de locais com fezes de roedores?
EV: O erro mais comum é varrer ou aspirar a seco. Isso causa dispersão no ar de partículas virais presentes nas fezes e urina ressecadas, facilitando a inalação do vírus. O correto é ventilar o ambiente por pelo menos 30 minutos, usar máscara, umedecer o local com água sanitária diluída ou desinfetante e remover os resíduos com pano úmido.

Quem deve ter mais cuidado e atenção em relação à doença?
EV: As pessoas mais expostas aos dejetos de roedores, como trabalhadores rurais; pessoas que limpam depósitos, celeiros, galpões ou casas fechadas; militares e bombeiros em treinamento de campo; profissionais de controle ambiental; praticantes de ecoturismo e moradores de áreas rurais ou periurbanas com infestação de roedores.

O hantavírus pode ser confundido com gripe, dengue ou doenças respiratórias?
EV: Sim. Nas fases iniciais, pode ser confundido com gripe e outras doenças como Covid-19, dengue, leptospirose e outras viroses febris. Isso porque os primeiros sintomas são inespecíficos, como febre, dor no corpo, dor de cabeça, mal-estar e náuseas.

Qual o principal alerta para a população neste momento?
EV: A doença pode começar de forma mais leve e evoluir rapidamente para insuficiência respiratória grave. Além disso, ambientes fechados e infestados representam risco e a prevenção depende de cuidados simples na limpeza. Caso haja sintomas compatíveis com a doença e evolução para tosse e falta de ar, é imprescindível procurar atendimento médico, pois o diagnóstico precoce é fundamental para evitar o óbito.

Quais as diferenças entre as variantes do vírus?
EV: Os hantavírus pertencem à família Hantaviridae e existem diversas variantes associadas a espécies de roedores. A variante Andes, encontrada principalmente na Argentina e no Chile, é importante porque pode causar transmissão entre pessoas. Além disso, está associada a quadros graves e possui histórico de surtos familiares e hospitalares. A transmissão interpessoal é considerada rara entre hantavírus das Américas, mas bem documentada para o Andes vírus.

No Brasil, as variantes mais documentadas são Araraquara vírus, Juquitiba vírus, Castelo dos Sonhos vírus e Laguna Negra-like. O diagnóstico divulgado como “IgM reagente para hantavírus” indica infecção recente, mas não necessariamente identifica a variante. As diferenças estão relacionadas à transmissão, gravidade e circulação. A maioria dos hantavírus americanos é transmitida apenas por contato com excretas de roedores. O Andes vírus é uma exceção, por permitir transmissão de pessoa para pessoa. Algumas variantes, como Araraquara e Andes, também estão associadas a maior risco de óbito.

As pessoas que encontram ratos no dia a dia devem se preocupar?
EV: Os principais reservatórios dos hantavírus nas Américas são roedores silvestres, especialmente ratos do campo. Os ratos urbanos clássicos, como a ratazana de esgoto, estão mais associados à leptospirose e outras zoonoses urbanas. Isso não significa risco zero nas cidades, mas a maior parte dos casos humanos ocorre em áreas rurais, de mata e zonas periurbanas, onde há interface entre humanos e roedores silvestres. Encontrar um rato ocasional na rua não significa automaticamente risco elevado de hantavirose.

Quais medidas sanitárias devem ser adotadas em surtos como o do navio MV Hondius?
EV: Nessas situações, as medidas incluem rastreamento de contatos, monitoramento clínico dos passageiros, vigilância epidemiológica internacional, orientação sobre sintomas, notificação aos países de destino e avaliação da necessidade de isolamento ou observação. Caso haja suspeita da variante Andes, a atenção aumenta devido ao potencial de transmissão interpessoal. Os passageiros devem ser acompanhados durante o período de incubação da doença.

Os casos confirmados podem deixar sequelas?
EV: Alguns pacientes podem apresentar fadiga prolongada, redução transitória da capacidade pulmonar e recuperação lenta da função respiratória. Entretanto, a maioria consegue recuperação funcional significativa após a fase aguda, especialmente quando recebe suporte intensivo precoce.


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