
Mostra da fotógrafa Ana Lima ocupa o Museu dos Correios de 25 de abril a 14 de junho, com retratos e depoimentos de pessoas que usam o único banheiro público do Setor Comercial Sul
No coração do Setor Comercial Sul, entre os fluxos do comércio, de escritórios e o concreto planejado de Brasília, há um banheiro que se tornou muito mais do que um equipamento público. Reformado durante a pandemia, o espaço é o único do tipo na região e atende diariamente centenas de pessoas em situação de vulnerabilidade, trabalhadores ambulantes, transeuntes moradores e pessoas em situação de rua. É lá que a fotógrafa Ana Lima encontrou os onze protagonistas da exposição “Faces”, que entra em cartaz no Museu dos Correios de 25 de abril a 14 de junho, com entrada gratuita.
A mostra reúne retratos em grandes formatos, acompanhados de depoimentos em áudio acessíveis por QR Code — uma experiência imersiva que devolve protagonismo a quem a cidade muitas vezes insiste em não enxergar.
“O que me dói muito ainda hoje em dia, diariamente, é o preconceito da sociedade”, diz Laila, mulher trans travesti que viveu mais de uma década em situação de rua e hoje trabalha no Instituto No Setor, organização que mantém o banheiro comunitário. O relato dela é um dos que ecoam na exposição: “As pessoas que vivem em situação de rua respeitam mais a gente, travesti, do que a sociedade em si.
Rostos, marcas e vozes
Diferente de um ensaio documental tradicional, “Faces” aposta no close. Sem paisagens, sem cenários — apenas os rostos, a pele, os olhos, os traços que o tempo e a vida inscrevam em cada um. Ao lado, os áudios trazem o que a imagem não pode mostrar sozinha: a palavra em primeira pessoa, sem mediações. A exposição tem produção da Santa Luz, apoio do Museu Correios, realização do MNI – Instituto de
Desenvolvimento Social, PNAB – Política Nacional Aldir Blanco, SECEC DF e Governo do Brasil – do lado do povo brasileiro. “O maior medo é de você deitar e não acordar, sabe por quê? Pela violência. Por alguém que tem revolta”, conta um dos participantes, professor aposentado que vive nas ruas desde 2017. Ele fala sobre a intranquilidade de dormir de cabeça embrulhada, o medo de ser confundido com outra pessoa, a dificuldade de acessar direitos básicos. Outro depoente, Paulo, pernambucano que passou três anos em situação de rua, relembra: “Já vi pessoas passarem e jogar copo de cerveja no rosto de pessoas que estavam deitadas. ”Para Paulo, a exposição é também um lembrete de que o caminho fora da rua é possível — mas exige acolhimento.“Se hoje eu tô trabalhando, se hoje eu tô no meu aluguel, é porque teve pessoas que acreditaram em mim e me deram oportunidade. É isso que a rua precisa: gente que acredite nelas, que dê oportunidade e abra a porta.”
Um banheiro, uma cidade, um projeto
Idealizada por Ana Lima — fotógrafa com mais de 30 anos de carreira, colaboradora da Editora Abril e produtora do longa Indianara, documentário de 2019 exibido em Cannes que acompanha Indianara Alves Siqueira, militante que luta pela sobrevivência das pessoas transgênero no Brasil – a exposição nasce de uma inquietação: como tornar visível o que a cidade planejou para ser ignorado? “Brasília tem uma relação particular com o que não pode ser visto”, escreve o diretor criativo Pedro Matallo no texto que acompanha a mostra.
“No Setor Comercial Sul, existe um único banheiro público. Parece pouco, mas é muito. Por vinte anos, o espaço ficou fechado. Foi reaberto durante a pandemia, quando a crise sanitária tornou impossível ignorar que havia centenas de pessoas sem acesso a água, a um espelho, a condições mínimas de higiene. ”O banheiro, que funciona com doações da comunidade, atende cerca de mil pessoas por semana. Sua continuidade, porém, nunca é garantida.
“Faces” se propõe, além de dar voz a essas pessoas, a mobilizar a sociedade para a manutenção desseserviço essencial.
O olhar do curador
Para o fotógrafo e professor da FAC/UnB, Marcelo Feijó, curador da exposição, as imagens de Ana Lima vão além do registro documental: “O foco está nos olhos que brilham! E nos devolvem a luz em múltiplas perguntas: quem somos nós? Quem são vocês? Nós existimos?” Feijó destaca a escolha estética da mostra, que se opõe ao excesso contemporâneo: “Não há retórica nas imagens, não há ornamentos, não há efeitos especiais. Há apenas o essencial, o ato fotográfico em diálogo com os depoimentos, na sua pureza primordial. O desejo de revelar o outro!”
Sobre o impacto da montagem em grandes formatos sobre acrílico, o curador acrescenta com ironia e sensibilidade uma referência ao carnavalesco Joãozinho Trinta: “É luminosa sofisticação… como que a sussurrar o recado do mestre: ‘Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta mesmo é de luxo’. Luxo para todos. Um pouquinho que seja. Amém.
Da galeria para a rua
Além da ocupação no Museu dos Correios, o projeto ganha as ruas de Brasília: cerca de 200 cartazes com os retratos serão espalhados do centro às regiões periféricas, numa intervenção urbana que tensiona a relação entre visibilidade e indiferença.
Os depoimentos em áudio, disponíveis por QR Code, trazem ainda relatos como o de João, que perdeu o emprego na pandemia e passou a viver no Setor
Comercial Sul. Ele fala sobre os laços que se formam no território: “Ontem mesmo eu ajudei uma menina ali, ela tava sem comida. Aí eu falei: senta numa mesa que eu vou pagar pra você, mas eu quero ver você almoçando. Porque eu sei pra quê que você quer o dinheiro.”
Para Ana Lima, “Faces” é, acima de tudo, um convite à conexão humana. “Não se trata apenas de ver, mas de descobrir que, independente de nossas circunstâncias, compartilhamos as mesmas necessidades de dignidade, afeto e pertencimento” afirma.
Serviço:
“Faces”— Exposição de Ana Lima
Período: 25 de abril a 14 de junho de 2026
Local: Museu dos Correios — SCS, Quadra 4, Edifício Apollo, Brasília (DF)
Horário: 9h às 17h
Entrada gratuita
Classificação indicativa: 14 anos
A exposição conta com recursos de acessibilidade, incluindo audiodescrição.
Produção da Santa Luz, apoio do Museu Correios, realização do MNI – Instituto de Desenvolvimento Social, PNAB – Política Nacional Aldir Blanco, SECEC DF e Governo do Brasil – do lado do povo brasileiro.
Mais informações: https://www.projetofaces.com/
Sobre a fotógrafa
Ana Lima é formada em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB).
Com mais de três décadas de trajetória, atuou nas áreas de moda, beleza e gastronomia, colaborando com a Editora Abril por mais de dez anos. No audiovisual, produziu e dirigiu filmes autorais e institucionais, sendo produtora do longa Indianara (2019), selecionado para o Festival de Cannes. É autora das imagens do livro Telma da Babilônia, premiado no Best Cookbook Awards 2025. Atualmente, dirige o curta documental Prata 70, filmado em Pirenópolis (GO). fotógrafa Ana Lima. O foco está nos olhos que brilham! E nos devolvem a luz em múltiplas perguntas: quem somos nós? Quem são vocês? Nós existimos? Qual é o nosso lugar nesta cidade? Neste mundo? Perguntas e respostas se misturam num jogo de espelhos.
O cenário é o Centro da cidade, um de seus paradoxos: a anti-Brasília fica na área mais nobre da capital. Pessoas transitam e buscam sobreviver às dificuldades num ambiente que não poupa esforços para excluí-los. Mas, de repente, alguns recalcitrantes buscam restituir a utopia do projeto original e compartilhar possibilidades de resistir ao simplesmente oferecer o básico, tantas vezes negado pelos poderes constituidos, o direito ao mínimo, um banheiro em condições de uso.
Em tempo de excessos – excessos de imagens, de sons, de informações – Ana Lima busca outro caminho. É um mergulho sem desperdício, direto e objetivo. Não há retórica nas imagens, não há ornamentos, não há efeitos especiais. Há apenas o essencial, o ato fotógrafico em diálogo com os depoimentos, na sua pureza primordial. O desejo de revelar o outro! Tudo na melhor tradição da fotografia documental.
A forma de apresentar o resultado expande todos limites para ressaltar o singelo. É luminosa sofisticação, nas belas impressões montadas em acrílico como que a sussurar o recado do mestre Joãozinho Trinta: “Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta mesmo é de luxo”. Luxo para todos. Um pouquinho que seja. Amém. Marcelo Feijó – fotógrafo e professor na FAC/UnB