
LAB-IA, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), desenvolve o Arandu, sistema que usará inteligência artificial para filtrar e classificar alertas gerados pelo Nancy Grace Roman
- Telescópio será lançado neste domingo (30), às 8h26, no horário de Brasília
- Com campo de visão pelo menos 100 vezes maior que o do Hubble, Roman investigará energia escura, exoplanetas e fenômenos transitórios do Universo
O Brasil terá participação estratégica no processamento do grande volume de dados que será produzido pelo Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, novo observatório da Nasa, com lançamento previsto para este domingo, 30 de agosto, às 8h26, no horário de Brasília. O Laboratório de Computação e Inteligência Artificial (LAB-IA) do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) desenvolve o Arandu, um broker de alertas astronômicos que ajudará pesquisadores a identificar e selecionar fenômenos registrados pelo telescópio.
Os brokers são sistemas computacionais que recebem os alertas gerados a partir das observações, cruzam essas informações com catálogos e registros anteriores, classificam os eventos e entregam aos astrônomos dados relacionados aos objetos que desejam estudar. Esse processo será essencial para transformar o fluxo de informações do Roman em descobertas científicas.
Desenvolvido com participação do LAB-IA no Brasil, o Arandu, que significa sabedoria em tupi-guarani, será especializado na análise de fenômenos que mudam com o tempo, conhecidos como eventos transitórios ou variáveis. Entre eles estão explosões estelares, oscilações no brilho de estrelas e outros acontecimentos que exigem identificação rápida para que possam ser acompanhados por pesquisadores e outros observatórios.
“O Roman produzirá um volume de dados que torna inviável examinar cada detecção manualmente. O Arandu usará inteligência artificial para organizar e classificar esse fluxo, ajudando os cientistas a encontrar os eventos mais relevantes para suas pesquisas. Sugestão desenvolvida e operada localmente, insere a ciência brasileira em uma etapa decisiva da astronomia contemporânea: a transformação de grandes volumes de dados em conhecimento científico”, afirma Clécio Roque De Bom, cientista e coordenador científico do CBPF e coordenador científico do LAB-IA.
Um Hubble com visão muito mais amplaEquipado com um espelho principal de 2,4 metros, o mesmo diâmetro do Hubble, o Roman produzirá imagens com sensibilidade e resolução comparáveis às do telescópio lançado em 1990. A diferença está na amplitude: seu campo de visão será pelo menos 100 vezes maior, permitindo observar extensas regiões do céu com elevado nível de detalhe.
Durante sua missão primária de cinco anos, o observatório poderá medir a luz de mais de 1 bilhão de galáxias. Um de seus principais levantamentos cobrirá mais de 5 mil graus quadrados, aproximadamente 12% de todo o céu, combinando imagens e espectroscopia para investigar a formação e a evolução do Universo.
O Roman também realizará observações repetidas de regiões próximas ao centro da Via Láctea. A estratégia permitirá detectar mudanças no céu em intervalos curtos e produzir um levantamento estatístico de sistemas planetários da galáxia. A expectativa da Nasa é que a missão revele mais de 100 mil mundos, incluindo exoplanetas e corpos que vagam pelo espaço sem orbitar uma estrela.
Fora da Via Láctea, o telescópio deverá identificar milhares de supernovas do tipo Ia. Por funcionarem como referências para medir distâncias cósmicas, essas explosões ajudarão os pesquisadores a investigar como a expansão do Universo mudou ao longo do tempo e a compreender melhor a energia escura, associada à aceleração dessa expansão.
“O diferencial do Roman não está apenas na quantidade de objetos que poderá observar, mas na possibilidade de acompanhar um Universo em transformação. Sistemas como o Arandu serão fundamentais para reconhecer essas mudanças no meio de um fluxo contínuo de dados e permitir que a comunidade científica reaja a elas”, acrescenta De Bom.
Lançamento e operaçãoO Roman será lançado a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, a partir do Complexo de Lançamento 39A do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. A Nasa prevê a decolagem para não antes das 8h26 deste domingo, no horário de Brasília, sujeita às condições técnicas e meteorológicas.
Após o lançamento, o observatório seguirá para uma região localizada a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, nas proximidades do ponto de Lagrange L2, também utilizado pelo Telescópio Espacial James Webb. Antes do início das observações científicas, o equipamento passará pelas etapas de viagem, posicionamento e comissionamento.
A transmissão começará às 7h20, no horário de Brasília, e poderá ser acompanhada pelos canais oficiais da Nasa, incluindo o NASA+ e o canal da agência no YouTube.
Sobre o LAB-IAO Laboratório de Computação e Inteligência Artificial (LAB-IA) do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) desenvolve pesquisas e soluções tecnológicas na interseção entre inteligência artificial, computação de alto desempenho e medicina. Formado por uma equipe multidisciplinar, o laboratório cria e aplica algoritmos para analisar grandes volumes de dados, modelar sistemas complexos e apoiar descobertas em áreas como astrofísica, cosmologia, geofísica, petrofísica, física de partículas, novos materiais, energia e medicina. Para saber mais, acesse: labia.cbpf.br/pt.