
Doutora em Psicologia do CEUB analisa raízes emocionais e sociais das relações abusivas, diante do recorde de feminicídios no Brasil
No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o debate sobre violência de gênero ganha ainda mais urgência. O Brasil registrou 1.470 casos de feminicídio em 2025, média de quatro mulheres mortas por dia em contexto de violência doméstica ou familiar. Outras 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência no último ano. No cenário global, dados da ONU indicam que, em 2024, 50 mil mulheres e meninas foram mortas por parceiros ou familiares, uma morte a cada 10 minutos.
Para Flávia Timm, doutora em Psicologia e professora do Centro Universitário de Brasília (CEUB), enfrentar a violência contra a mulher exige mais do que indignação pública: não é aceitável que a vida feminina esteja em risco dentro de casa. “Vivemos um genocídio de mulheres. Os mitos do amor romântico e as normas de gênero que objetificam a mulher precisam ser questionados, pois sustentam e naturalizam comportamentos abusivos.
Idealizado como solução para a solidão e promessa de felicidade, o amor romântico muitas vezes perpetua relações abusivas. A violência não é um problema individual, mas político, estruturado no sistema patriarcal e capitalista”, afirma.
Confira a entrevista na íntegra:
A violência costuma começar de forma sutil? Quais são os primeiros sinais de alerta?
FT: A violência não ocorre de forma sutil, mas de forma programada, no que chamamos de microviolências. O autor prepara a vítima para as agressões, produzindo constrangimentos, medo e até receio das alterações de humor do companheiro.
Inicialmente, começa com violência psicológica, um tipo de violência silenciosa, pois se esconde atrás da naturalização: atitudes hostis passam despercebidas. A violência psicológica busca desestabilizar ou ferir a mulher e já se apresenta como uma forma de recusa à alteridade. Esse tipo de violência ocorre quando o homem, ou autor da violência doméstica, nega o outro e o considera objeto de sua satisfação pessoal.
Quando esse tipo de abuso ocorre, é comum o autor justificar suas ações, derrapagens ou excessos com ciúmes, estresse, história de vida pregressa ou traumas familiares. E as mulheres tendem a acreditar que a pessoa não sabe se expressar ou que traumas anteriores afetam sua comunicação e suas relações. Porém, essa naturalização prepara o terreno para a intensificação das agressões. O processo envolve controle, isolamento da vítima, que deixa de se relacionar com família e amigos para evitar críticas, assédio (discussões infindáveis, extorsão de confissões injustificadas e irreais), aviltamento (com o propósito de atingir a autoestima), humilhações e indiferença.
Por que ainda se confunde ciúme com prova de amor e quando ele se torna controle?
FT: O ciúme foi naturalizado como reação frente ao objeto amoroso escolhido, como se revelasse que o amor existe. Essa naturalização foi incorporada aos costumes e práticas sociais. Está estruturada no mito do amor romântico, baseado na crença de que “amor é possessividade e exclusividade”. Dentro dessa lógica, o ciúme é interpretado como sinal do valor do parceiro e do medo de perdê-lo, sendo validado como expressão legítima e até desejável, do afeto. O ciúme não se torna controle; ele é uma estratégia de controle desde o início. A questão é que só é percebido como tal quando a sensação de sufocamento e a perda da liberdade se tornam insuportáveis para a vítima.
A dificuldade masculina de lidar com emoções e frustrações pode contribuir para comportamentos agressivos?
FT: Sim, a dificuldade masculina em lidar com emoções e frustrações é um fator que contribui para comportamentos agressivos. A antropóloga Rita Laura Segato conceitua o “mandato de masculinidade” como uma pressão social e cultural que obriga os homens a demonstrarem virilidade constantemente perante outros homens e a sociedade.
Esse mandato impõe um roteiro de comportamentos que reprime a expressão de sentimentos considerados “femininos”, como vulnerabilidade, medo e tristeza, ao mesmo tempo em que valoriza força, dominação e agressividade como provas de masculinidade.
Os grupos de reeducação de autores de violência trabalham exatamente nessa perspectiva, promovendo responsabilização a partir da desconstrução de estereótipos de gênero, conforme assegura a Lei Maria da Penha.
Por que é tão difícil romper o ciclo da violência?
FT: Romper com a violência doméstica é um processo complexo, pois envolve múltiplos fatores: econômicos, sociais, políticos, religiosos, culturais e individuais. Não existe regra única ou protocolo unificado. As experiências são singulares, e cada vítima vive uma realidade distinta que precisa ser respeitada. Algumas mães mantêm o relacionamento abusivo para não afetar os filhos. Outras acreditam que as condições financeiras influenciam o comportamento do companheiro e que o estresse vai mudar. Tem ainda quem aposte que o amor conseguirá transformar comportamentos hostis.
Não é fácil viver um relacionamento abusivo, nem rompê-lo. São muitas desconstruções necessárias: desde a idealização do amor romântico até a problematização dos modos de vida normalizadores que a sociedade e a cultura capitalista impõem. Romper com padrões repressivos de liberdade exige persistência crítica, disposição para repensar normas, rever preconceitos e estereótipos, ampliar diálogos, enfim, menos repetições que sequestram nossa potência de afirmar uma vida verdadeiramente livre.
Sair do ciclo também demanda decisões judiciais justas, acolhimento policial adequado e uma rede de apoio social que compreenda o caráter político da violência de gênero. A decisão individual sem uma estrutura institucional e social que as proteja e acolha pode se transformar em um perigo para as mulheres e seus filhos.
Quais orientações você daria para quem suspeita estar vivendo relação abusiva?
1. Confie na sua percepção: Se algo parece errado, provavelmente está. Não minimize seus sentimentos nem as atitudes do(a) parceiro(a). O desconforto é o organizá-la e percebê-la com mais clareza, quebrando o segredo que alimenta o primeiro sinal de que seus limites estão sendo violados.
2. Converse com alguém de confiança: Fale com amigos, familiares ou procure um profissional (psicólogo, assistente social). Externalizar a situação ajuda a
3. Informe-se sobre o ciclo da violência: Compreender as fases (aumento da tensão, explosão e “lua de mel”) ajuda a identificar o padrão e desmistificar a ideia de que “foi só um episódio isolado”
4. Busque ajuda especializada: Procure Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CEAM), o programa Direitos Delas (Secretaria de Justiça), delegacias da mulher e organizações não governamentais, como o Instituto Umanizzare e a
Casa IEDA, em Brasília, que oferecem apoio psicológico, social e jurídico. O número 180 (Central de Atendimento à Mulher) é um canal fundamental de escuta e orientação.
5. Planeje sua segurança: Organize um plano de proteção, compartilhe a situação com pessoas da sua rede, acione os órgãos de segurança pública e o Judiciário, solicite medida protetiva com base na Lei Maria da Penha. A maior segurança é não estar sozinha. Busque ajuda e amplie sua rede junto às instituições que acolhem, orientam e fortalecem os direitos das mulheres. Viver sem violência é um direito!