
Campanha alerta para a importância do diagnóstico precoce, do tratamento interdisciplinar e do combate ao estigma da dor persistente.
O Fevereiro Roxo é um mês dedicado à conscientização sobre as dores crônicas — condições que persistem por mais de três meses e impactam de forma profunda a vida de milhões de pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população mundial convive com algum tipo de dor crônica, o que representa mais de 45 milhões de brasileiros. Estamos falando de dores musculoesqueléticas, neuropáticas, lombalgias e doenças como a fibromialgia, muitas vezes invisíveis aos exames tradicionais, o que contribui para atrasos no diagnóstico e no início do tratamento adequado.
Uma curiosidade pouco conhecida ajuda a compreender a complexidade do problema: a dor crônica não “mora” apenas no local que dói. Com o passar do tempo, ela passa a ser processada de forma diferente pelo sistema nervoso central, envolvendo áreas cerebrais ligadas à memória, às emoções e à tomada de decisão. Nesse contexto, a dor deixa de ser apenas um sinal de alerta e passa a se comportar como uma doença em si, com mecanismos próprios de manutenção e amplificação.
Por isso, a dor crônica não deve ser encarada apenas como um sintoma. Trata-se de uma condição clínica complexa, capaz de comprometer o sono, a saúde mental, a capacidade funcional, a produtividade e as relações sociais. Seu impacto econômico também é expressivo, com aumento de afastamentos do trabalho, maior uso dos serviços de saúde e custos elevados para o sistema público e privado. Ainda assim, muitos pacientes seguem tendo seus relatos desvalorizados ou tratados como exagero.
Para o especialista em dor Dr. Carlos Gropen, a conscientização é o primeiro passo para romper esse ciclo. “A dor crônica ainda é subdiagnosticada e subtratada. Muitos pacientes passam anos em sofrimento antes de receberem um diagnóstico correto e um plano terapêutico estruturado. Campanhas como o Fevereiro Roxo são essenciais para dar visibilidade a essa condição e reforçar que dor persistente é uma questão séria de saúde”, afirma.
O tratamento da dor crônica exige uma abordagem interdisciplinar, e essa diferença não é apenas semântica. Enquanto o modelo multidisciplinar frequentemente soma intervenções paralelas, o cuidado interdisciplinar integra saberes, decisões e estratégias em torno do mesmo paciente. Médico, fisioterapeuta, psicólogo, educador físico e outros profissionais constroem juntos o plano terapêutico, de forma coordenada e contínua. “Não tratamos partes isoladas do paciente, mas a pessoa como um todo. A integração entre as áreas é o que gera resultados duradouros”, explica Dr. Gropen.
Estudos demonstram que pacientes acompanhados por equipes interdisciplinares apresentam melhora significativa da funcionalidade, da autonomia e da autoestima. Em contrapartida, a ausência de intervenção adequada está associada a maior risco de depressão, ansiedade e isolamento social. “Quando a dor não é reconhecida e tratada de forma integrada, ela passa a ocupar o centro da vida do paciente. Ouvir, acreditar e agir de forma coordenada é um ato de dignidade e de responsabilidade em saúde pública”, reforça o especialista.
Outro objetivo central do Fevereiro Roxo é o combate ao estigma. Ainda persiste a falsa ideia de que a dor crônica seja fruto de exagero ou fragilidade emocional. Na realidade, ela possui bases fisiológicas bem estabelecidas, envolvendo inflamação persistente, alterações neurológicas, processos de sensibilização central e fatores genéticos. “Desacreditar o paciente intensifica o sofrimento e atrasa o acesso ao cuidado adequado. Combater o estigma é parte essencial do tratamento”, alerta Dr. Gropen.
A campanha também chama atenção para a necessidade de políticas públicas e investimentos em serviços especializados em dor, com foco em modelos interdisciplinares de cuidado. O acesso ao diagnóstico correto e ao acompanhamento contínuo ainda é limitado para grande parte da população. “A dor crônica precisa ser tratada como prioridade em saúde pública. Sem estrutura, formação profissional e integração entre áreas, milhões de pessoas continuarão sofrendo em silêncio”, conclui.
O Fevereiro Roxo surge, assim, como um convite à reflexão coletiva. A dor crônica não deve ser normalizada, ignorada ou subestimada. Informação de qualidade, acolhimento e tratamento interdisciplinar baseado em ciência são capazes de transformar vidas e reduzir impactos sociais e econômicos. “Conscientizar é dar voz aos pacientes, validar sua experiência e mostrar que é possível viver melhor, mesmo convivendo com dor crônica”, finaliza Dr. Carlos Gropen.